Reproduzo aqui um texto que me foi repassado numa lista de discussão sobre Psicologia Organizacional e do Trabalho.
O texto é curto mas serve para refletirmos sobre o impacto do trabalho em nossas vidas, sobre como a organização do trabalho pode ser "psicopatogênica", fonte de sofrimento e total desespero.
Empresa de telefonia vive onda de suicídios na França
Daniela Fernandes
De Paris para a BBC Brasil
A empresa de telefonia francesa France Télécom vive uma onda de suicídios de seus funcionários. Nos últimos 18 meses, 22 empregados da operadora se mataram, seis deles apenas nos últimos dois meses.Nesta quarta-feira, um funcionário de 50 anos se esfaqueou na barriga durante uma reunião de trabalho em Troyes, no noroeste da França.
O empregado, identificado como Lionel, foi informado de que sua vaga havia sido cortada e que ele passaria a realizar uma outra atividade na empresa, o que o funcionário considerou como um rebaixamento do cargo.
Lionel foi transferido de urgência para um hospital e não corre risco de vida. Ele trabalha há 30 anos na France Télécom.
Mudança
Segundo sindicalistas, Lionel fazia manutenção dos serviços telefônicos em empresas clientes da operadora. Ele soube, durante a reunião, que passaria a fazer consertos em residências de assinantes.Também segundo os sindicatos, ele havia sido informado de que "as vagas disponíveis existiam apenas a centenas de quilômetros da área onde ele trabalha".
A direção da France Télécom informou que o empregado "trabalhava no setor de intervenção n as empresas, cujo volume de atividade diminuiu".
Segundo a operadora de telefonia, "a transferência do funcionário prevê que ele trabalhe na mesma cidade, na mesma atividade (de manutenção), no mesmo local".
Estresse
Os sindicatos acusam a direção da France Télécom de não levar em conta a grande preocupação dos trabalhadores provocada pelo atual processo de reestruturação da companhia.
A direção da empresa, em Paris, vai se reunir na quinta-feira com representantes dos trabalhadores e deverá anunciar medidas para prevenir o estresse no trabalho.
Os sindicatos anunciaram, também na quinta-feira, uma jornada de mobilização, com pré-aviso de greve, para protestar contra os suicídios.
Os sindicatos denunciam uma "deterioração das condições de trabalho" na France Télécom, causada pela eliminação de postos de trabalho, reestrut urações, transferências obrigatórias de trabalhadores para outras localidades sem possibilidade de recorrer da decisão, além de pressões cada vez maiores para aumentar a rentabilidade da companhia.
``Direção do terror''
Um funcionário da empresa, que se suicidou no dia 14 de julho, em Marselha, no sul da França, havia justificado sua decisão em uma carta, alegando graves problemas no trabalho.
"Eu me suicido por causa do meu trabalho na France Télécom. É a única razão. A desorganização total da empresa me deixou totalmente perturbado. Eu me tornei um destroço. É melhor acabar com tudo", dizia o empregado na carta. Ele também denunciou no texto a sobrecarga de trabalho e a "direção de terror" da empresa.
Vários suicídios também já ocorreram, entre 2006 e 2007, nas montadoras Renault e Peugeot, quando os empregados se suicidaram no próprio local de trabalho.
A France Télécom, privatizada em 2004, emprega cerca de 187 mil pessoas no mundo.
Plataforma de discussão da psicologia organizacional e do trabalho abordando tanto as questões da prática profissional como da investigação científica na área.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
domingo, 6 de setembro de 2009
Maslow
A teoria de Abraham Maslow acerca da motivação humana é, talvez, a mais conhecida entre psicólogos e profissionais de outras áreas do conhecimento. Como ficou conhecida, a Teoria da Hierarquia das Necessidades ganhou considerável notoriedade e é presença quase certa em praticamente todos os manuais que tenham a motivação como tema integrante. Enfim, praticamente todo mundo lembra da tal “pirâmide de necessidades”.Como afirma em seu texto de intitulado “A Theory of Human Motivation”, Maslow esteve interessado em identificar necessidades básicas, comuns a todos os indivíduos. A partir de sua prática clínica, ele chegou formulou a proposição de que o comportamento humano – ou pelo menos boa parte deste – poderia ser explicado por cinco categorias de necessidades básicas. Estas necessidades estão organizadas numa hierarquia (hierarchy of pre-potency). A representação dessa hierarquia escolhida por muitos é a tal pirâmide.
Maslow definiu as necessidades fisiológicas como aquelas em primeiro lugar na hierarquia. Estas estão relacionadas com o mais básico para a sobrevivência do ser humano e inclui as necessidades de alimentação, sono, sexo, etc. Isso significa dizer que se todas as necessidades básicas estão insatisfeitas, todas as capacidades (inteligência, memória, etc.) do sujeito serão direcionadas para a satisfação das necessidades fisiológicas.
Na sequência, a segunda categoria é denominada de necessidades de segurança. As necessidades de proteção, estabilidade, segurança, etc estão incluídas aí. Maslow denominou a terceira categoria em sua hierarquia como necessidades de amor. Contudo, estas passaram, posteriormente, a ser chamadas necessidades socias, as quais incluem amor, amizade, pertença, afiliação e relações afetivas com outras pessoas em geral.
As necessidades de estima constituem o quarto nível hierárquico proposto por Maslow e incluem o respeito por si mesmo, auto-estima, prestígio, status. Com base nessas necessidades o indivíduo pode procurar exercer uma série de comportamentos em busca de reconhecimento, atenção, apreciação, ou, na sua vertente ma interna, liberdade, independência, competência.
O quinto e último nível hierárquico é chamado de auto-realização. Esta categoria de necessidades refere-se ao desenvolvimento e crescimento pessoal, ou seja, a necessidade que os indivíduos têm de realizar suas potencialidades e de transformarem-se naquilo para que têm capacidade.
Apesar da noção de uma sequência estar implícita em sua teoria, Maslow reconhece que as necessidades interagem entre si e podem agir simultaneamente na energização de acções. Portanto, não temos aqui uma idéia de tudo ou nada, em que uma determinada categoria de necessidades apenas passa a influenciar o comportamento de um indivíduo quando este conseguir satisfazer a necessidades de uma categoria superior em termos de importância na hierarquia. Essa infelizmente tem sido a interpretação dada à teoria na maioria dos manuais.
Maslow assume que, à medida em que determinadas necessidades são satisfeitas, acontece que a capacidade destas para influenciar o comportamento diminuem mas não necessariamente desaparece. Portanto, um indivíduo pode ter as suas necessidades de estima insatisfeitas, mas buscar determinados comportamentos designados para satisfazer as suas necessidades de auto-realização. Ademais, Maslow reconheceu desde sempre que as motivações – termo que usa para referir-se às ditas necessidades – constituem apenas uma classe de determinantes do comportamento e estão ao lado dos factores biológicos, culturais e situacionais. Este é um dos detalhes importantes que, por vezes têm escapado aos olhos dos críticos desta teoria.
Como consequência de sua própria popularidade, a teoria da Hierarquia das Necessidades tem sido alvo de interpretações pouco precisas dos postulados de seu autor e de uma insistente simplicação de suas idéias originais. Particularmente creio que muitas das críticas à teoria têm como base uma interpretação errônea das principais proposições. Se há alguma crítica realmente difícil de rebater é o forte viés cultural de sua teoria. Sua análise das necessidades reflete fortemente o cenário cultural norte-americano. E quando se fala em identificar necessidades básicas dos seres humanos, faz-se necessária uma análise muito mais abrangente que parte da população de um país.
domingo, 23 de agosto de 2009
Homenagem a Dona Mundinha
A minha avó não foi a primeira mulher a votar nem a primeira a assumir um cargo público. Não foi símbolo de luta pelos direitos civis ou de qualquer outra luta que seja. Não quebrou paradigmas nem trouxe novas perspectivas para a sociedade em que viveu.
Até onde sei, minha avó era vascaína, fã incondicional de Roberto Dinamite. Trabalhou como farmacêutica e foi membro do Lion’s club. Ela foi uma mulher comum, uma mulher de seu tempo. Nasceu, cresceu, casou e teve filhos. Seus filhos tiveram filhos e dessa forma se fez mãe de alguns, avó de alguns mais.
A minha avó fazia um bife saboroso que me fazia esquecer o coentro que ia no tempero e que eu tanto odiava. Ela me levava a pé ao supermercado mais próximo e me ensinava a “arte” de escolher frutas. As laranjas tinham que ter a casca fina, os abacaxis tinham que soltar parte da coroa e para a melancia era necessário bater e treinar o ouvido. Ela me fazia tomar leite morno achocolatado antes de dormir e comer biscoito de água e sal com queijo. Me ensinou a jogar baralho e assim espantava um pouco sua solidão. E isso tudo, tinha ela a certeza, era cumprir seu papel de avó.
Na casa da praia, acordava às 6h e nos chamava pra catar pedras e búzios. Chamava-nos à hora do almoço quando estávamos nas pedras e não nos deixava matar os peixes ou os siris que nós, curiosos e sádicos, trazíamos de volta da “pescaria”.
Mais tarde na faculdade, quando já a chamava “dona mundinha”, sua casa passou ser um pouco a minha segunda casa. Chegava cedo e ia para o quarto estudar e dormir, atrasando sua faxina. Ela nunca entrava no quarto e brigava com quem o fizesse. Quando adormecia no sofá me trazia um travesseiro e me acordava pra deitar na rede que já estava armada. Viajávamos de carro e seu olhar sério dirigido ao velocímetro alternava-se aos sorrisos que surgiam quando alguma música de seu tempo surgia. Adiciono a estas lembranças um enorme et caetera.
As ditas “grandes” mulheres não me deixam saudade. Não marcaram minha vida. São uma pseudo-realidade; algo distante, frágil e superficial. A minha avó, por outro lado, era real. Pra mim maior que qualquer Hannah Arendt, Virginia Wolf ou Rosa Parks. Sua importância simplesmente não é mensurável ou discutível. Ela ajudou a fazer de mim o que sou hoje. É essa a marca que ela me deixou ao nos deixar esta noite.
Até onde sei, minha avó era vascaína, fã incondicional de Roberto Dinamite. Trabalhou como farmacêutica e foi membro do Lion’s club. Ela foi uma mulher comum, uma mulher de seu tempo. Nasceu, cresceu, casou e teve filhos. Seus filhos tiveram filhos e dessa forma se fez mãe de alguns, avó de alguns mais.
A minha avó fazia um bife saboroso que me fazia esquecer o coentro que ia no tempero e que eu tanto odiava. Ela me levava a pé ao supermercado mais próximo e me ensinava a “arte” de escolher frutas. As laranjas tinham que ter a casca fina, os abacaxis tinham que soltar parte da coroa e para a melancia era necessário bater e treinar o ouvido. Ela me fazia tomar leite morno achocolatado antes de dormir e comer biscoito de água e sal com queijo. Me ensinou a jogar baralho e assim espantava um pouco sua solidão. E isso tudo, tinha ela a certeza, era cumprir seu papel de avó.
Na casa da praia, acordava às 6h e nos chamava pra catar pedras e búzios. Chamava-nos à hora do almoço quando estávamos nas pedras e não nos deixava matar os peixes ou os siris que nós, curiosos e sádicos, trazíamos de volta da “pescaria”.
Mais tarde na faculdade, quando já a chamava “dona mundinha”, sua casa passou ser um pouco a minha segunda casa. Chegava cedo e ia para o quarto estudar e dormir, atrasando sua faxina. Ela nunca entrava no quarto e brigava com quem o fizesse. Quando adormecia no sofá me trazia um travesseiro e me acordava pra deitar na rede que já estava armada. Viajávamos de carro e seu olhar sério dirigido ao velocímetro alternava-se aos sorrisos que surgiam quando alguma música de seu tempo surgia. Adiciono a estas lembranças um enorme et caetera.
As ditas “grandes” mulheres não me deixam saudade. Não marcaram minha vida. São uma pseudo-realidade; algo distante, frágil e superficial. A minha avó, por outro lado, era real. Pra mim maior que qualquer Hannah Arendt, Virginia Wolf ou Rosa Parks. Sua importância simplesmente não é mensurável ou discutível. Ela ajudou a fazer de mim o que sou hoje. É essa a marca que ela me deixou ao nos deixar esta noite.
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